ARTIGOS SOBRE SEGURANÇA EM UNIVERSIDADES (1)

Violência leva professores a suspender aulas
Os professores das faculdades de Física e de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) decidiram ontem suspender as aulas nas unidades. Eles alegam que não há segurança dentro do campus da Ilha do Fundão, onde assaltos são freqüentes e duas professoras tiveram seus carros roubados na semana passada.

Faculdade pede silêncio, dizem calouros
Calouros de medicina veterinária da USP que sofreram trote no fim de semana no campus de Pirassununga (SP) disseram que foram orientados pela direção da faculdade a não comentar o episódio.
Alunos e pais afirmaram que querem preservar o nome da faculdade. O diretor da instituição, Masao Iwasaki, negou, por meio da assessoria da USP, a existência de pedido para que os alunos não falassem. O professor Enrico Lippi Ortolani, presidente da comissão de sindicância da faculdade, afirma que "não há nenhuma lei do silêncio", mas afirma que orientou o centro acadêmico a "baixar a bola", para evitar conflitos.
Mesmo assim, alunos que pediram para não ser identificados revelaram que houve brincadeiras "mais pesadas", como rolar na lama ou mastigar restos já comidos por outros calouros. Apesar disso, disseram que houve exagero nas denúncias contra o trote.
(Folha de S. Paulo - 28/02/03)

Alunos denunciam trote violento na USP
A USP vai investigar um suposto trote violento em alunos de medicina veterinária no campus de Pirassununga (a 213 km de SP), no último fim de semana. Esse é o primeiro caso conhecido de trote violento na USP depois da morte do calouro de medicina Edison Hsueh, em 1999.
Segundo denúncia feita ao disque-trote da universidade, os calouros de veterinária teriam sido obrigados a tomar banho com um líquido retirado do estômago de gado (ruminal), a andar só com roupas íntimas e a rolar em lama com estrume de vaca. Havia cerca de 150 estudantes.
O prefeito do campus de Pirassununga, Marcus Antônio Zanetti, disse que já há elementos suficientes que comprovam o trote violento. Ele disse que, segundo a portaria 3154/99, da reitoria da USP, os alunos que forem identificados como os responsáveis pelo trote violento serão punidos com suspensão ou expulsão do curso. "Tudo vai depender da participação de cada um."
Segundo o ouvidor-geral da USP, Rui Laurenti, "os veteranos e os calouros serão ouvidos". O prefeito do campus afirmou que, em 60 dias, o relatório final da comissão de sindicância deve estar concluído.
O professor Enrico Lippi Ortolani, presidente da comissão de sindicância da faculdade, diz que "informalmente" há a informação de que os alunos tiveram de rolar na lama.
Um aluno do terceiro ano de zootecnia, que reside na moradia do campus de Pirassununga e participou da festa, confirmou os trotes, mas negou a violência.
Uma caloura que não foi à festa disse que colegas confirmaram que alunos veteranos jogaram líquido ruminal nelas, mas negaram que tenha havido brincadeira com tochas -uma das denúncias feitas ao disque-trote.
A estudante, que preferiu se manter no anonimato, participou da primeira semana de trote em São Paulo, sem incidentes, mas decidiu não ir a Pirassununga.
Segundo ela, nas aulas, os estudantes não reclamaram de nada, já que "ninguém quer passar por chato e ficar isolado". A estudante afirma que o centro acadêmico recomendou que os alunos não dessem entrevista sobre o caso.
A presidente do centro, Ieda Blanco, nega. "Só falamos que, se a imprensa perguntasse, eles deveriam dizer que as coisas serão resolvidas na sindicância. Mas quem quiser falar pode."(Folha de S. Paulo - 27/02/03).
Jornal da Unicamp 180 - Página 12 - 10 a 21 de julho de 2002
Morreu Maria
A pesquisadora Sheila dos Santos mostra como estudantes que convivem com a violência criam linguagem particular para se protegerem Luiz Sugimoto

Na sala de aula, a aluna conta para a professora que o lobisomem "forte, grande e peludo" queria pegar a mulher e a menina. Do meio da sala, um menino busca o olhar da colega e põe a palma da mão direita no peito, deslocando um pouco o corpo para trás; com o polegar da mesma mão, aponta para trás do ombro. É um sinal: "morreu Maria'. Ou traduzindo melhor: "acabou o assunto". Neste episódio, o menino tenta proteger a menina, pensando que ela está denunciando à professora três colegas que cobram um "pedágio" - balas, figurinhas, chicletes e mesmo dinheiro - para permitir que as crianças entrem ou saiam da sala. Um desses colegas tem um apelido que lembra o lobisomem, personagem criado pelo imaginário social. Na verdade, a garota estava narrando a violência de que é vítima no meio familiar.

Durante três anos (de 1996 a 1998), no canto da sala, estava a pesquisadora Sheila Daniela Medeiros dos Santos, observando o comportamento das crianças de uma escola do ensino fundamental na periferia de Campinas. A escola fica entre duas favelas e, desnecessário dizer, sob clima de cotidiana violência. A proposta inicial da dissertação de mestrado de Sheila, pela Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, seguiria preceitos pedagógicos clássicos para avaliar a não-participação de alunos nas atividades escolares: falta de motivação, bloqueios psicológicos, problemas neurológicos, pressão de um universo cultural estranho sobre quem vivencia a miséria.

Mas, "num dia de outono, no mesmo instante em que o sinal de saída tocou estridente", como ela recorda, o enfoque do seu trabalhou mudou. Ao ver, através da janela da classe, algumas crianças caminhando cabisbaixas em direção ao portão, enquanto outras saíam alvoroçadas ciscando pela direita e esquerda, a cena corriqueira lhe pareceu inédita. Olhando nos olhos das crianças cabisbaixas, ela mudaria seu próprio olhar de pedagoga, para perceber os traços e os contornos acústicos de uma realidade dramática revelada por meio de uma linguagem – oral, escrita, gestual - que nós, deste lado do mundo, ignoramos. A dissertação de Sheila virou livro: "Sinais dos Tempos - Marcas da violência na escola", que foi lançado em 25 de junho pela Editora Autores Associados, com apoio da Fapesp.

"Quando me lancei na aventura de observar e vivenciar o cotidiano de uma escola pública, pude perceber que a maioria das crianças das salas de aula não se envolvia com as atividades escolares. Algumas ficavam desenhando ou enviando bilhetinhos para os colegas, outras cantavam em voz alta e outras silenciavam por longo tempo", lembra a pedagoga. Em contrapartida, as mesmas crianças que silenciavam, em determinados momentos envolviam-se com a leitura e a escrita, participando da aula, fazendo comentários e levantando questões. "Mas esse envolvimento sempre se dava fora do contexto em que as atividades estavam sendo propostas pela professora e sempre se relacionavam aos assuntos mais estranhos e ininteligíveis".

Aventura - De professores e da administração da escola, Sheila ouviria as explicações pedagógicas clássicas: imaturidade biológica/cognitiva, problemas emocionais/neurológicos, processo de escolarização excludente, falta de motivação. Dos pais, atitudes punitivas - surras - ou de premiação - promessas de piscina e presentes - para que as crianças cumprissem seus deveres. Mas foi na declaração de uma das mães que nenhuma providência tomaram, que a pesquisadora encontrou o foco para sua pesquisa: "Não é burrice nem preguiça, o problema dela é ver gente morrendo", disse a mãe de Edi.
Mergulhando no bairro em que viviam os alunos, Daniela descobriria um dia-a-dia de atropelamentos, crimes, bares com bebidas alcoólicas e sinucas, vídeolocadoras onde só se alugam filmes de violência, vizinhos que desconfiam de vizinhos, gangues em conflito que recrutam os próprios estudantes e depredam e roubam a própria escola. A pedagoga ainda precisou de muita precaução e persistência para que essas crianças abrissem seus corações e traduzissem seus códigos, propiciando depoimentos, cartas e outras manifestações que se revelaram como um pedido de socorro e ajudaram a completar as mais de 200 páginas do livro que leva a uma revisão da metodologia dos estudos sobre violência até agora praticados.

Prudência – Sheila Daniela desenvolve atualmente sua tese de doutoramento em ciências sociais, mas decidiu mudar a linha de sua pesquisa. Optou pela prudência, ao menos momentaneamente, em respeito a novos sinais enviados pelas crianças. Quando do início das entrevistas para a dissertação de mestrado, ela recebeu o desenho de um coração com a palavra "entre" - um convite de Rô para que penetrasse em sua vida. No final dos trabalhos, recebeu outro coração, mas desta vez com uma faca encravada, sangrando – era Ive prevenindo a pesquisadora de que ela fora incluída na lista das gangues.
FRASES
"Para compreender a vida, basta ficar em silêncio e ouvir a voz do coração. Há sempre uma boa lição!" (Rô)

"Há muitas coisas que estão presas na garganta e que não podem ser ditas". (Alê)

"Mesmo que a boca estiver calada, resta o peito para sentir e fora a boca e peito resta a cabeça para pensar". (Eli)"Eu vim pra escola pra aprende a lê e a escrevê. Sabe por que, tia? Porque as gangue que mata os moleque tem uma lista dos nome que eles vão matá e se um dia eu vê a lista, eu vô podê avisa os conhecido pá fugi". (Edi)

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