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quarta-feira, 6 de abril de 2011

COMUNICAÇÃO SINDICAL: RESUMO DO LIVRO "MURALHAS DA LINGUAGEM"

Autor: VITTO GIANNOTTI
Editora: MAUAD

APRESENTAÇÃO

"Palavras como indignidade, irrelevante, bravata e até otimistas oferecem algum problema à compreensão para alguém? É evidente que não, responde qualquer um que nunca pertenceu à Senzala. São palavras que todo mundo entende. Não é isso?"

"Além do problema do dicionário, do repertório, das palavras, há outro menos evidente, mas que oferece uma dificuldade tão grande ou maior para a compreensão de um texto, um artigo ou até uma fala. Trata-se da construção da frase. Ou, mais diretamente, do tamanho da frase. Uma frase longa oferece dificuldade de ser acompanhada, compreendida  por quem não é acostumado à leitura. Ao contrário, uma frase curta é mais facilmente compreendida. Este é o ponto de partida e de chegada destas pesquisas."

CAPÍTULO I
Casa Grande e Senzala na Linguagem

Expressões como tirar o apoio representam algum problema? Evidentemente que não. Mas o evidente não é tão evidente assim, se soubermos encarar, sem medo, nossa imagem no espelho. Poderemos ver um país dilacerado entre a Casa Grande e a Senzala. Entre uns que têm a compreensão da palavra otimista, e outros, que não a têm. Ou melhor, uns que têm uma compreensão e outros que têm outra, totalmente oposta.

Nada a perder, a não ser as suas cadeias

Num curso de História, para um sindicato de Minas Gerais, sobre a origem da classe operária, sua história na Europa do século XX. Fala-se da Revolução Industrial, dos primeiros sindicatos e das primeiras greves. A certa altura, o instrutor começa a empolgar-se ao falar do Manifesto Comunista. Fala que recentemente, em 1998, foram comemorados, no mundo inteiro, os 150 anos do Manifesto de Marx. Num esforço de propaganda político-ideológica, divide a turma em grupos de cinco pessoas e manda cada grupo analisar uma frase da famosa cartilha comunista.

A frase à qual o monitor, em todos os cursos, dá mais ênfase está no final do texto. É a frase-chave que leva o monitor ao orgasmo que este gostaria que fosse de todos e se transformasse num grande orgasmo coletivo.

"Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder nela, a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!"

O exercício constava de uma discussão em grupo sobre o conteúdo de algumas frases da cartilha de Marx. Esta última frase do Manifesto era uma das mais fáceis de se comentar. Pelo menos, deveria ser.

A expectativa do monitor era de que o grupo falasse sobre as cadeias da escravidão a serem rompidas. Os proletários só tinham isso a perder. Suas cadeias. Com a revolução seria o fim da sua escravidão. Das suas cadeias.

Mas o espanto foi que aquele grupinho de uns cinco ou seis dirigentes sindicais não conhecia o sentido mágico, que se tinha para o professor, da palavra cadeia. Cadeia, para eles era cadeia: aquela do Fernandinho Beira Mar, ou o Carandiru de São Paulo, do filme que a Globo tanto propagandeou, em 2002... E as cadeias do proletariado? Ninguém as conhecia. O monitor, mais uma vez, teve de retardar a tão esperada hora do seu orgasmo político-ideológico coletivo.

Prédio tombado

Enquanto as juventudes douradas do País estão se deliciando com os tombamentos de Paraty, ou de Recife Antigo, um grupo de jovens cariocas está passando um tranquilo fim de semana na Região Serrana do Estado do Rio. O caseiro do sítio onde eles estavam, o seu Pedro, puxa conversa, todo preocupado, sobre uma notícia que ouviu, na véspera, pela televisão. "Vocês moram em Botafogo, não é? Pois ontem o repórter falou que o prefeito está tombando um montão de prédios por lá. O Rio é muito perigoso, toda hora eles tombam prédios. Vocês precisam tomar muito cuidado." A turminha ficou meio desconcertada, mas, fazer o quê? Concordaram com o seu Pedro que o Rio é uma cidade muito perigosa mesmo.

Está claro? Tombar um prédio é uma ótima medida para uns... trágica para outros, na visão de seu Pedro. Depende de... uma coisa só: daquilo mesmo que já foi repetido demais. Se quem está falando é da Senzala, ou da Casa Grande.

Indignidade positiva

Traduzir indignação! Dá para suspeitar que a palavra indignidade possa ser pensada como sinônimo de indignação, raiva, ou coisa parecida?

Abaixo um exemplo do uso da palavra indignidade por um dirigente do Sindicato Rural de Barretos:

"Que sirva este trabalho para fazer o resgate histórico, para a gente rever este passado, para não perdermos a nossa memória.
Para evocar em cada um de nós, de nossos filhos, de nossos jovens a indignidade positiva para que a gente transforme esta realidade numa realidade melhor para todos os trabalhadores que produzem a riqueza desta grande região."

Este dirigente sindical é, sem dúvida, um trabalhador esclarecido, lúcido, politizado. O conteúdo do discurso está ótimo...

Certamente em congressos, encontros, missas ou comícios deve ter ouvido a palavra indignidade. Dirigente sindical, padre, candidato, todos eles devem ter usado, mais de uma vez, cheios de indignação, a palavra "indignidade". E o nosso diretor aprendeu esta palavra cheia de sentidos e agora a usa. Mas não é de qualquer indignidade que nosso lutador está falando. Ele está realmente bravo, está indignadíssimo. Por isso ele vai falar, naquele discurso de final de greve, da indignidade verdadeira... uma "indignidade positiva".

De onde vem este uso estranho da palavra indignidade? Este trabalhador rural certamente luta, há anos, pela dignidade de seus companheiros. Contra toda indignidade. Mas ele é da Senzala. Estudou na Senzala. Vive na Senzala. Não lê jornais e nem compra livros. Como todos os da Senzala. E fala a lingua da Senzala. Para ele indignidade é sinônimo de indignação. E isso efetivamente não tira nenhum mérito ao seu valor como lutador. Somente escancara o problema de qualquer pessoa que vai a um país estrangeiro e não conhece bem a língua daquela terra. Logicamente que não sabe o sentido de todas as palavras.


Não há nenhum escândalo elitista, sobre se há pessoas que não sabem distinguir entre indignidade ou indignação. É muito comum pessoas com pouca escolaridade trocar palavras. Isto acontece não só nestes casos. Mesmo entre quem tem seu diploma de terceiro grau, na mão, acontece a três por dois. Muita gente não usa as palavras corretas. Mas isso não vem ao caso aqui. O que é chocante é que dirigentes sindicais, comunitários, ou políticos não admitam que a realidade é esta.Que a tal palavra indignidade, que eles proferem com toda a indignação do mundo, não significa a mesma coisa para milhões de seus ouvintes. Por que não usar outra palavra que substituaindignidade? A explicação é simples: por que não se acredita que haja alguém que não saiba exatamente o que significa indignidade. Por que se acha que esta palavra é intraduzível, insubstituível. Pois as duas hipóteses são completamente irreais.


Os reflexos da comunicação, nas dificuldades de compreensão de um texto, falado ou escrito, mostram seus resultados.

"Durante a campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 1985, Jânio Quadros contou com o apoio do deputado e ex-ministro Delfim Neto. Durante um comício para moradores de um bairro de periferia, Delfim terminou sua fala dizendo: "A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário." Logo depois, Jânio chamou Delfim de lado e disse: Delfim, olhe para a cara daquele sujeito ali. O que você acha que ele entendeu do seu discurso? Ele não sabe o que é processo. Não sabe o que é inflacionário. Não sabe o que é déficit. E não tem a menor idéia do que é orçamentário. Da próxima vez, diga assim: "A causa da caresia é a roubalheira do governo!" (Teoria da argumentação jurídica, de Airto Ceolin Montagner).

De que adianta falar de maneira perfeita para ninguém entender?

CAPÍTULO 2
A Senzala na educação e a comunicação

Qual a explicação? Quais as implicações? Sobretudo, no nosso caso, como aprender a traduzir a palavra inviável pela expressão que não vai dar certo? Qual é melhor? Inviável ou  que não vai dar certo? Com certeza, a melhor é aquela que a imensa maioria consegue entender. Não está escrito em nenhum livro sagrado, nem na Bíblia, nem no Corao, e nem nos Vesta, que, para a felicidade das pessoas, é essencial que entendam uma frase do tipo "seu problema é um problema de classe". Nem está escrito que para produzir automóveis, sapatos ou pãezinhos ajude muito saber o que significa a expressão calcanhar-de-Aquiles, ou bode expiatório. Tanto quanto não é necessário ter lido o Kamassutra ou o Anangaranga para, na cama, na grama, ou de p'e, chegar ao mais alucinante orgasmo.

A barreira da escolaridade

Hoje, a diminuição do analfabetismo no país é apresentada ao mundo como uma grande conquista dos governos neoliberais dos anos 90. É um raro índice de melhora, após uma década de destruição causada por este projeto. Com estes números, feitos sob medida para o presidente da República apresentar na ONU e no Vaticano, apresenta-se um país das maravilhas. Só falta Alice!


Com estas estatísticas tenta-se encobrir a realidade de um ensino totalmente precário, pobre e incapaz de preparar os futuros cidadãos para entender e sobreviver na sociedade na qual irão viver.


Alguém acredita que quem tenta sobreviver com até dois salários mínimos entrou alguma vez numa biblioteca, livraria, cinema, teatro ou algo parecido?


Falar para o empresário e a empregada doméstica


Para a compreensão de qualquer língua, há dois planos de dificuldades: o primeiro é o dicionário, o repertório, as palavras. O segundo é a construção da frase. Construção e, sobretudo, o tamanho das frases.


Falar uma linguagem bem elaborada, bonita, que mostre suas idéias e seus conhecimentos e ao mesmo tempo seja compreensível.


"A linguagem não deve ser simplória que irrite o empresário, nem difícil que a empregada não entenda."


A Globo sabia muito bem qual era a sua política, seus objetivos de classe, quando em 1989 editou de forma infame o famoso debate Lula x Clollor.


Não há nada a aprender da política deste império das comunicações por quem quer mudar a história deste país, baseada na Casa Grande e na Senzala. Mas há tudo a aprender por parte de quem quer comunicar uma outra política. Tudo a aprender de sua capacidade de comunicar. Como falar da sua visão de mundo. Como divulgá-la. Quais palavras usar.


Uma linguagem inteligível por empresários e por empregadas domésticas.


É possível escrever sem ser simplório e nem complicado demais? É. A Globo ensina como. Pesquisando sempre. E a pesquisar se aprende, à medida que haja uma atitude de suspeita de que nem tudo o que escrevemos ou distribuímos é automaticamente compreendido pelos destinatários. É preciso duvidar. Pesquisar. Duvidar se o que escrevemos é lido e... depois, compreendido pelo público que se pretende atingir. Logo após a dúvida, vem a pesquisa.


Abaixo, um exemplo de palavras retiradas de uma cartilha que nasceu com o objetivo de ser popular, mas que havia dezenas de palavras ou expressões que o povo "normal" não entenderia. De que povo normal está-se falando? Daqueles que não são engenheiros da AEPET,  nem militantes da Teologia da Libertação, nem sindicalistas da CUT, ou ativistas do MST, do PT, do PSTU ou do PCdoB. Afinal, as pessoas normais que iriam votar. Quantos poucos milhares daqueles dez milhões que foram votar nas urnas improvisadas iriam entender estas palavras?


"Produto Interno Bruto / o que significam 11 trilhões de dólares / cúpula Hemisférica / liberalização do comércio / mercados de contratos públicos / bens públicos / subsídios / fitossanitárias / transgênicos / fomentar / patenteamento genético / antidumping / direitos de compensação ..."


Qual a barreira? A escolaridade!

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