Matéria no Yahoo fala sobre o programa de internação compulsória de dependentes químicos


O cuidado e o alvo


O governo do Estado de São Paulo começou, na última segunda-feira (21), o programa de internação compulsória de dependentes químicos. A internação compulsória difere da involuntária, pois nesta há a necessidade de um pedido de familiares do dependente e aceito por um médico psiquiatra. A compulsória não necessita de um pedido familiar, quem determina a internação é um juiz, a partir de um pedido médico.
O Rio de Janeiro já tinha programas de internação compulsória para menores, e em abril começará a internar adultos. Em Salvador, foram instaladas câmeras para vigiar a população de rua para “evitar delitos e observar o uso abusivo de drogas que se enquadra nos casos de internação compulsória previstos em lei.”
Ninguém duvida que é necessário fazer algo quanto à dependência química, em especial na população das ruas, alijada de todos os direitos. Que, talvez, como último recurso e em casos bem específicos, amparada numa enorme rede de cuidados, ressocialização, de reinserção no mercado de trabalho, haja a necessidade de internação contra a vontade.
Agora, como bem pontuou Maurício Fiore em um preciso texto, não é a internação compulsória queresolveria o complexo e multifacetado problema dos dependentes do crack.
É bastante interessante perceber, mesmo nos discursos oficiais, o ato falho. Na letra, a questão é “o dependente químico”. Na prática e nas falas, a química vira o crack. Por que?
Talvez aqui esteja a chave para entender todo este movimento de internação compulsória. A dependência de outras drogas não inspira preocupação das autoridades, e não é pelo poder de vício ou de destruição que elas têm, muito menos pela quantidade de gente que faz uso.
A questão única do crack é que o seu consumo foi restrito a áreas específicas das cidades. Áreas abandonadas que se tornaram degradadas rapidamente. A fala do secretário de Promoção Social e Combate à Pobreza de Salvador é exemplar.
Vigiar um grupo específico, que ocupe uma área específica, para que, se possível, amparado legalmente, o poder público venha a tirar estas pessoas das ruas.
O alvo, amigos, não é o vício ou a dependência química. Muito menos o crack e o tratamento aos viciados. O alvo são as cracolândias e o incômodo que elas representam a nós.
P.S. É uma fina ironia que duas pessoas que quiseram ser internadas para receber tratamento contra o vício foram recusadas. Médicos concluíram que a internação não era o tratamento adequado.
Por Walter Hupsel | Fonte: Yahoo

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