Charles Darwin O Gênio Atormentado

Por Pierre de Latil
HISTÓRIA VIVA

Um verdadeiro escândalo estourou quando Charles Darwin publicou, em 1859, Da origem das espécies pela via da seleção natural. A primeira edição - de 1.250 exemplares, volume grande para a média da época - se esgotou em alguns dias. Nascia assim o "transformismo", uma doutrina que se opunha frontalmente às idéias consagradas sobre o tema e que, por oposição, seriam a partir daí chamadas de "fixismo".
O autor escrevia:
"Os bons criadores de animais domésticos procuram, por meio de uma seleção metódica dos pais, criar novas linhagens, superiores às existentes no país. Mas há outra seleção, bem mais importante, que poderíamos chamar de inconsciente, cuja mola propulsora é o desejo que todos sentimos de reproduzir os melhores indivíduos de cada espécie. Assim, quem quer cães de caça começa escolhendo os melhores exemplares entre os encontrados, para depois providenciar sua descendência. Não é certo que a intenção seja, sempre, a de modificar a raça. Mas, se essa prática se repetir, acabará por produzir a modificação da raça."

Assim é a seleção artificial. Sobre a base desse mecanismo indiscutível, Darwin enxertou a "seleção natural", cuja exposição iria desencadear verdadeiras tempestades. O motor da evolução é a persistência do mais apto na luta pela vida. O lobo mais forte tem mais possibilidade de ter filhotes do que os lobos mais fracos, mantidos à parte do grupo. A borboleta que passa mais desapercebida, sobre a planta onde pousa, tem mais chance de sobreviver do que outras, e sua descendência conseguirá se confundir com a vegetação.

Esse homem, por ocasião do lançamento de sua teoria, tinha 50 anos de idade, e teve idéias bastante revolucionárias para sua época por reflexões feitas na juventude, no curso de uma longa viagem científica de volta ao mundo. Mas ele tinha consciência de que suas convicções eram explosivas, a ponto de ter preferido amadurecê-las durante muito tempo. Pôde, ao longo desse período, reforçá-las com os melhores argumentos, antes de publicá-las.
Se Charles, o segundo filho de um rico médico de Shrewsbury, no noroeste da Inglaterra, era especialmente dotado do ponto vista intelectual, era também bastante despreocupado. Seu pai, muito rígido, lamentava que ele se dedicasse sobretudo "à caça, aos cães e à captura de ratos". O rapaz preferiu não seguir a carreira médica, conforme a tradição familiar. Demonstrou até mesmo vivo horror pela atividades desde a primeira intervenção cirúrgica a que assistiu, feita em uma criança, evidentemente sem anestesia. Seu pai quis, então, fazer dele um sacerdote. Foi sob essa perspectiva que Charles começou seus estudos em Cambridge.Dotado de grande inteligência e facilidade para aprender, ele só se dedicava aos estudos de modo diletante. Continuava a recolher pedras e insetos. A caça, sua paixão, também o mantinha em contato com a Natureza da mesma forma que suas leituras favoritas, as dos grandes viajantes, em especial Humboldt. As incursões para estudos de arborização, com seu professor de botânica, permitiram que ele fizesse observações precisas.

Em três anos, se formou. No outono de 1831, voltou à casa paterna, sem saber muito bem o que faria da vida, que parecia fácil. E então desabou a tempestade, antes que o verão sequer tivesse chegado ao fim. O responsável foi seu professor de botânica, embora valha uma reflexão a respeito do destino e de como se entremeiam seus fios. Tudo decorreria, é certo, de sua grande curiosidade e de sua viva inteligência.

Longa expedição

O mestre, que gostava muito de seu jovem amigo, foi contatado pelo almirantado, que preparava uma expedição hidrográfica de volta ao mundo, dedicada especialmente a fazer o levantamento das profundezas do oceano e estudar as correntes marítimas em torno da América do Sul. O jovem naturalista foi consultado sobre seu interesse em participar da viagem. Sem nenhum salário, evidentemente. A proposta caiu como uma luva para Darwin. Ao lhe oferecer essa função, seu protetor escreveu-lhe : "É uma ocasião excepcional para um homem dedicado e de caráter". O jovem, porém, enfrentou uma dificuldade inicial. Teve de recorrer ao tio para reverter a negativa que ouviu do pai ao consultá-lo sobre a partida. Essa resistência não só foi vencida como dele recebeu dinheiro suficiente para gastos que teria por vários anos.

No final do ano de 1831, ele estava a bordo quando o Beagle deixou a Inglaterra para uma longa exploração marítima que se tornaria famosa. Darwin, então com 22 anos, compartilhava a cabine com o igualmente jovem, de 27 anos, capitão Fitzroy, chefe da expedição, cujo nome foi dado, no final do século XX, a um dos mais belos picos nevados dos Andes. Era o começo de um longo convívio e uma estreita relação de amizade. Não obstante, mais tarde, o mesmo Fitzroy se alinhou entre os mais ferozes inimigos de Darwin, por sua oposição aos ensinamentos bíblicos.

No último verão de sua epóca de estudante, Darwin tinha acompanhado um professor de geologia de Cambridge numa viagem de estudos ao País de Gales. Somado a isso, nos primeiros dias da travessia, leu os Princípios de Geologia de Charles Lyell, cujo primeiro tomo acabara de ser publicado. Era uma obra de muita repercussão, construída com base na idéia de que a Terra sofria os efeitos do que o autor chamou de "causas atuais".

Ele estava bem preparado, portanto, para o que viria a descobrir em sua primeira escala tropical, quando abordaram as ilhas de Cabo Verde. Rochas brancas a uns 15 metros acima do nível da praia continham as mesmas conchas e mexilhões que se podia encontrar à beira-mar. Altos rochedos negros davam prova de atividade vulcânica recente. Assim se revelou ao jovem viajante a importância decisiva do tempo: essas ilhas que haviam se formado há pouco tempo, mais recentemente ainda haviam emergido.

Fósseis exumados

Não tardou para que se iniciasse a lenta navegação ao longo da costa da América do Sul, com incursões por seus recortes hidrográficos, durante as quais o naturalista iria explorar terras, ao longo de vários anos. Dessa maneira, Darwin encontrou nos pampas argentinos seus primeiros fósseis. No leito seco de um rio despontavam as ossadas. Ele as exumou. Explorou e escavou os arredores. Descobriu restos de monstruosos quadrúpedes. Um deles tinha o tamanho de um elefante, mas a dentadura de um roedor. Um espírito dotado de razão não poderia deixar de concluir que, apesar da crença generalizada sobre o recente nascimento da Terra já com o formato atual, o planeta, bem como a vida nele, havia evoluído durante muito tempo, antes de assumir as características do presente.

Bem mais ao sul, na Patagônia, perto de Puerto San Julian, Darwin encontrou fósseis de animais gigantes já desaparecidos. Agora, afirmava, "um paquiderme notável, tão grande quanto um camelo". E as dimensões desses espécimes surpreendiam o naturalista. "Este continente deve ter abrigado, em outros tempos, monstros imensos; atualmente, só vemos pigmeus, se compararmos os animais que aqui vivem às raças extintas. Qual pode ter sido a causa do desaparecimento de tantos tipos e de espécies inteiras? Contra a vontade, pensamos numa grande catástrofe. Mas um cataclismo que tivesse sido capaz de destruir dessa forma todos os animais da Patagônia, do Brasil e da cordilheira do Peru teria sacudido o globo terrestre até suas bases mais profundas. Na verdade, o estudo da geologia dessas regiões nos permite concluir que todas as formas de vida sobre a Terra são derivadas de modificações lentas e graduais."

Nas ilhas Falkland, que os franceses batizaram de Malvinas (em francês, Malouines), Darwin se surpreendeu com as impressionantes variedades de formas que apresentavam os "lobos das Falkland", carnívoros já extintos, comparando-se os das ilhas ocidentais àqueles das orientais do arquipélago. Ele desconfiou que a separação de populações em princípio idênticas as fizera evoluir de modos diferentes e independentes, reflexão de capital importância para um espírito que formularia mais tarde doutrinas evolucionistas.

Na Terra do Fogo, no extremo sul do continente, o viajante teria oportunidade de focar suas reflexões na direção de outros seres vivos: os próprios seres humanos. "Alguns indígenas nos seguiram durante várias milhas, correndo ao longo da orla marítima. Eu jamais esquecerei um desses grupos de selvagens: quatro ou cinco apareceram de repente no alto de um rochedo que dominava o mar. Completamente nus, a longa cabeleira solta, eles brandiam no ar grandes bastões; saltavam, agitando os braços e fazendo grotescas contorções, enquanto soltavam os gritos mais horrendos." Uma outra tribo, ele registrou em seus escritos, ostentava como única vestimenta pedaços de pele "apenas suficientes para cobrir as costas até a altura dos rins, que eles envolvem com fios passados de um lado a outro do corpo, e que se agitam conforme a direção do vento". O naturalista refletiu sobre a evolução e também a miserável condição humana, num país onde o inverno é gelado. Numa ilha que o Beagle logo alcançou, subindo agora pela costa do Chile, foram as mudanças da Natureza que surpreenderam Darwin, em especial as de ordem geológica. Ele assistiu a uma violenta erupção do vulcão Osorno, que domina Valdívia. Alguns dias mais tarde, testemunhou um forte terremoto, o de 20 de fevereiro de 1835, que destruiu a cidade de Concepción. Ele estava deitado sob as árvores, numa praia próxima de Valdívia, quando o chão tremeu por dois minutos. Suas impressões: "O movimento quase me fez ficar enjoado".

O navio retomou sua rota e chegou a Concepción duas semanas mais tarde. Do ponto de vista geológico, a destruição completa da cidade foi menos relevante do que o efeito considerado por Darwin realmente "mais notável": ao redor de toda a baía, as terras sofreram uma elevação, ele calculou, de 2 ou 3 pés. E mais: "Um recife de mexilhões em putrefação, ainda colados aos rochedos, demonstrava uma elevação de uns 10 pés".

No seu relato de uma excursão que durou um mês, através das montanhas dos Andes, constam observações a respeito dos terraços de cascalhos e aluviões que enchiam alguns vales, mas em outros haviam sido recortados por erosões recentes. Darwin, a partir do seu estudo, concluiu: "A cadeia de montanhas, em lugar de ter surgido de repente, como ainda acreditam vários geólogos, se ergueu lenta e gradualmente". Assim, sempre e em todos os lugares, a Terra nos mostrava que vive e que não pára de evoluir, há milhares de anos. O que, para a época, era uma heresia.

Mundo à parte

Assim, durante mais de três anos, o mundo deu ao jovem viajante atento mil provas de suas transformações do presente e de suas metamorfoses ancestrais. Havia mais, porém. O acaso colocou no final dessa incursão sul-americana o arquipélago de Galápagos. Atualmente, conhecemos bastante bem as características excepcionais de sua flora e fauna, que fizeram dessas ilhas uma reserva biológica mundial, com justa razão denominada "laboratório de evolução". A mil quilômetros do Equador, de origem vulcânica relativamente recente, essas ilhas constituem um mundo à parte.

São muito conhecidas fotos ou filmes sobre seus inhames marinhos, seus enormes lagartos terrestres, suas tartarugas, as maiores do mundo, seus pássaros que têm os hábitos de nossos pica-paus, mas que - por não terem os bicos tão pontiagudos - utilizam um espinho de cacto para arrancar vermes vivos do tronco das árvores. Por toda parte, nessas ilhas, a vida assumiu formas bastante particulares - o que prova que ela pode evoluir. Há, ainda, as diferenciações que podem ser estabelecidas entre as populações das várias ilhas. Elas são separadas por canais, freqüentemente largos e sempre com violentas correntezas, que impedem que sejam atravessados. Além disso, os morcegos se encarregaram de eliminar qualquer nadador imprudente. Nem mesmo os pássaros passavam de uma ilha a outra.

Os exploradores separaram, em redomas de vidro, 14 espécies de pintassilgos, diversos tipos de tartarugas, variedades típicas dessa ou daquela ilha. A diferenciação era tão precisa que, diante de Darwin, o governador equatoriano do arquipélago teve ocasião de reconhecer a origem da tartaruga trazida para o seu jantar. Assim, o naturalista teve a confirmação de que, de fato, de uma única origem nasceram espécies variadas, por influência de diversos fatores (meio ambiente, alimentação, transmissão hereditária de características adquiridas acidentalmente).

Depois das ilhas Galápagos, terminava a missão do Beagle. Mas a viagem de volta ainda teria escalas no Taiti, na Nova Zelândia, na Austrália e nas ilhas Maurício, onde o naturalista pôde também constatar milhares de vidas diferentes. O retorno a Portsmouth aconteceu em outubro de 1836. Darwin, física e espiritualmente amadurecido, voltou rapidamente a The Mounth, a propriedade familiar onde caixas de documentos enviados de todas as escalas o aguardavam. Ele estava intimamente convencido da evolução dos seres vivos. Mas tinha consciência do caráter explosivo de suas idéias; tampouco queria publicá-las sem que tivessem amadurecido bem e, sobretudo, sem tê-las reforçado com base em novos estudos, em outros exemplos. Antes ele publicou, com grande sucesso, o relato de sua viagem.

Foram suas idéias a respeito da evolução geológica que suscitam mais interesse, e ele pôde expressá-las plenamente, enquanto deixava de lado as reflexões sobre biologia. Pouco tempo depois, ele leu a Teoria da População, de Malthus, que acabara de ser publicada e que reforçaria suas próprias concepções. "Eu havia finalmente chegado ao momento de elaborar uma teoria...", escreveu, tempos depois. Só em 1859 ele viria a publicar a Origem das espécies, embora o título completo fosse A origem das espécies por meio da seleção natural ou a Preservação das raças favorecidas na luta pela vida.

A obra teve uma procura impressionante e se transformou no escândalo da época. Ele nem tinha, ainda, ousado aplicar suas teorias à raça humana. Escreveu simplesmente: "Um raio de luz complementar haverá um dia de iluminar a questão da origem do homem". Frase prudente, até mesmo sibilina, impotente porém para evitar a cólera e até mesmo o ódio de muitos. Em 1871, saiu a primeira edição de A descendência do homem, livro carregado de um caráter tão explosivo que até mesmo muitos adeptos da teoria da obra anterior se afastaram dele.

A idéia de que seres humanos e macacos pudessem ter ancestrais comuns foi um choque muito forte. No dilúvio de severas críticas que caíram sobre a cabeça do autor, há a indagação mordaz feita pelo bispo de Oxford: "É possível acreditar que variedades especiais de nabos tenham tendência a se tornar homens?".

Outro eclesiástico declarou ter procurado, em vão, na língua inglesa, termos baixos o suficiente para qualificar Darwin e seus partidários. Nos Estados Unidos, onde ninguém ousava brincar com a Bíblia, um professor que defendeu as teses de Darwin, questionando dessa forma o Gênesis, foi entregue à Justiça. Mas Darwin tinha como couraça uma filosofia própria. Enquanto o mundo inteiro era virado do avesso por suas idéias, ele falecia aos 73 anos de idade, em 19 de abril de 1882, em sua propriedade de Kent, de onde ele jamais saiu depois de sua viagem imortal.

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